A The Lancet publicou em 11 de outubro de 2026 a Comissão sobre ameaças globais à saúde do século 21, que identificou 17 ameaças capazes de moldar a saúde da população mundial entre 2025 e 2100 (1). Duas delas foram classificadas como de potencial de extinção: o uso malicioso de inteligência artificial e o conflito nuclear (1).
O relatório usou a infraestrutura de projeção do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), com análises por país para 204 países e territórios (1). Reuniu 35 comissários de saúde, economia, segurança, governança e tecnologia, e foi lançado no World Health Summit 2026, em Berlim (2).
O número que a Comissão calculou para cada ameaça não é o estrago total que ela vai causar. É quanto desse estrago ainda dá para evitar. Essa diferença é o que explica por que obesidade aparece acima de conflito nuclear na lista, e vale entender antes de olhar a tabela.
O que são DALYs
Todas as ameaças foram medidas em DALY (disability-adjusted life year, ou anos de vida ajustados por incapacidade), a unidade que soma os anos perdidos por morte precoce aos anos vividos com incapacidade (1).
É a mesma métrica do Global Burden of Disease, Injuries, and Risk Factors Study (GBD). Para dar escala: a pandemia de COVID-19 causou cerca de 500 milhões de DALYs, de modo que 1 bilhão de DALYs equivale a aproximadamente duas pandemias de COVID-19 (1).
Se quiser firmar o conceito antes de seguir: o que são DALYs e o que é o Global Burden of Disease.
O que é carga evitável
Para cada ameaça, a Comissão projetou dois futuros plausíveis até 2100, um melhor e um pior cenário, e mediu a distância entre eles (1). Essa distância é a carga evitável (expected amenable burden): a perda de saúde que poderia ser revertida por ação política até o fim do século (1).
O que diz a ciência: o número de cada ameaça não é a carga total projetada, é a parcela que ainda está em disputa. Carga evitável mede o quanto poderia ser revertido, não a urgência que a ameaça merece (1).
Os números das 17 ameaças
Valores cumulativos de 2025 a 2100, em bilhões de DALYs, com intervalo de incerteza de 95% (1). A ordem é decrescente por valor central, mas a Comissão não apresenta a lista como ranking, e a razão disso está explicada adiante.
| Ameaça | Carga evitável (bilhões de DALYs) | Intervalo de incerteza 95% |
|---|---|---|
| Obesidade | 23,1 | 19,5 a 26,9 |
| Baixa escolaridade | 16,1 | 12,2 a 22,8 |
| Desigualdade de renda | 13,8 | 6,50 a 28,8 |
| Uso malicioso de inteligência artificial | 10,4 | 0,00 a 15,6 |
| Conflito nuclear | 9,35 | 0,00 a 24,5 |
| Saúde mental precária | 9,35 | 6,34 a 13,0 |
| Envelhecimento não saudável | 8,26 | 6,38 a 10,6 |
| Conflito convencional | 7,71 | 6,58 a 9,14 |
| Tabagismo | 7,06 | 5,93 a 8,38 |
| Pressão arterial sistólica elevada | 4,79 | 3,74 a 6,25 |
| Resistência antimicrobiana | 3,44 | 2,84 a 4,06 |
| Pandemias de ocorrência natural | 2,39 | 0,896 a 7,09 |
| Uso elevado de álcool | 2,35 | 1,97 a 3,06 |
| Mudança climática | 1,89 | 1,32 a 2,48 |
| Poluição do ar | 1,64 | 1,33 a 1,95 |
| Colapso da assistência ao desenvolvimento em saúde | 1,50 | 1,20 a 1,95 |
| Desnutrição infantil | 1,02 | 0,673 a 1,62 |
No caso do conflito nuclear, a Comissão estima ainda 133 milhões de mortes evitáveis (intervalo de 0,00 a 339 milhões) (1). E projeta que a África Subsaariana concentraria cerca de 70% da carga evitável ligada ao colapso da assistência internacional ao desenvolvimento em saúde (2).
O relatório recebeu uma errata na mesma edição da revista, que corrige o nome e as afiliações de um dos comissários e não altera nenhuma estimativa (4).
As letras miúdas da tabela
Três ressalvas mudam a leitura dos números, e nenhuma delas costuma aparecer na cobertura.
“Obesidade” ali não é só obesidade. O item agrega IMC (índice de massa corporal) elevado, dieta inadequada e baixa atividade física (1). É um agregado de risco metabólico, não um diagnóstico isolado. Boa parte da liderança da tabela vem dessa definição ampla.
“Mudança climática” cobre só parte do problema. A estimativa considera apenas vias diretas de dano à saúde, como calor extremo e poluição do ar, deixando de fora disrupção econômica, perda de biodiversidade, deslocamento populacional e seca (1,2). A comparação é entre limitar o aquecimento a cerca de 1,8 °C e deixá-lo chegar a 4,4 °C (2). O valor é piso, não teto.
Dois intervalos começam em zero. Inteligência artificial (0,00 a 15,6) e conflito nuclear (0,00 a 24,5) têm limite inferior nulo, ou seja, as estimativas são compatíveis com nenhum ganho. A própria Comissão descreve a avaliação da IA como qualitativa e em larga medida subjetiva (1). Esses dois números não têm o mesmo estatuto dos que vêm de décadas de vigilância, como tabagismo e pressão arterial.
Por que a lista não é um ranking
A Comissão partiu de centenas de ameaças e as organizou em uma pirâmide de quatro camadas: 215 no panorama mais amplo, 99 como grandes riscos e causas, 15 como grandes ameaças catastróficas e 2 com potencial de extinção (1). As 17 do título são as duas camadas do topo.
Para entrar, a ameaça precisava ultrapassar 1 bilhão de DALYs cumulativos até 2100 no cenário de referência, ou ter potencial de extinção (1). Também pesaram dados suficientes para modelagem e margem concreta de ação política (2).
Atenção a essa cifra: 1 bilhão de DALYs é o limiar de entrada na lista, não o ganho de agir. São quantidades diferentes, e o IHME sinaliza isso de forma explícita (2). No gráfico principal do relatório, as ameaças aparecem em ordem alfabética, e não por magnitude, e a Comissão escreve que a figura não é hierarquia de prioridade de política e não deve ser lida como tal (1).
Uma ameaça com valor menor pode exigir ação mais urgente, seja por carregar risco de catástrofe na cauda da distribuição, seja porque vias importantes de dano seguem sem quantificação (1).
Há ainda um argumento aritmético que a ordem da tabela esconde: os intervalos se sobrepõem tanto que um deles chega a conter a estimativa central do outro. O intervalo do conflito nuclear (0,00 a 24,5) cobre o valor central de todas as outras 16 ameaças. O da inteligência artificial (0,00 a 15,6) cobre o de 14 delas. E o da desigualdade de renda (6,50 a 28,8) cobre o da obesidade, que lidera a lista (1).
Em termos práticos: com essa dispersão, a diferença entre a quarta e a décima posição da tabela não é um resultado, é ruído. O que sustenta leitura é a ordem de grandeza, não a colocação.
O que ficou de fora, e por quê
Duas exclusões ajudam a entender a régua.
Colisão de asteroide e supervulcões foram avaliados como riscos de extinção e descartados, porque a probabilidade de ocorrerem nos próximos 75 anos foi julgada extremamente baixa (1).
Doença isquêmica do coração e vários tipos específicos de câncer ficaram fora da camada catastrófica por avaliação de que já recebem atenção política e investimento suficientes (1).
O segundo caso é o mais contraintuitivo: há causas de morte enormes que não entram justamente por já estarem no radar. A lista não responde “o que mais mata”, responde “onde ainda há muita perda de saúde em jogo e pouca ação coordenada”.
O Brasil nessa conta
A Comissão contou com pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, do Centro de Saúde Global e do Centro de Estudos Estratégicos, no Rio de Janeiro (1).
E a ameaça que lidera a tabela tem medida nacional. Segundo o Vigitel Brasil 2023, a frequência de adultos com obesidade no conjunto das 27 capitais foi de 24,3%, semelhante entre mulheres (24,8%) e homens (23,8%), variando de 17,7% em Goiânia a 30,4% em Macapá (3). O dado vem de inquérito telefônico com peso e altura autorreferidos, o que tende a subestimar a prevalência real: serve para acompanhar tendência, não substitui medida antropométrica direta (3).
O que a Comissão recomenda
O relatório fecha com três recomendações: construir sistemas de saúde preparados para ameaças, com financiamento durável em vez de resposta a crise; investir em inovação onde as ferramentas atuais são insuficientes, de vacinas e antibióticos a tecnologias climáticas; e criar um monitor recorrente dessas ameaças, para que a avaliação seja atualizada e chegue também a quem decide em finanças e segurança (1,2).
Perguntas frequentes sobre as 17 ameaças à saúde global
O que é a Comissão da Lancet sobre ameaças globais à saúde do século 21? É um relatório publicado na The Lancet em 11 de outubro de 2026, que identificou 17 ameaças capazes de afetar a saúde da população mundial entre 2025 e 2100, com análises para 204 países e territórios (1). Reuniu 35 comissários de diferentes áreas (2).
Quais são as 17 ameaças? Duas de potencial de extinção, uso malicioso de inteligência artificial e conflito nuclear, mais obesidade, baixa escolaridade, desigualdade de renda, saúde mental precária, envelhecimento não saudável, conflito convencional, tabagismo, pressão arterial elevada, resistência antimicrobiana, pandemias de ocorrência natural, uso elevado de álcool, mudança climática, poluição do ar, colapso da assistência ao desenvolvimento em saúde e desnutrição infantil (1).
Qual é a maior ameaça segundo o estudo? A obesidade tem a maior carga evitável estimada, 23,1 bilhões de DALYs até 2100 (1). Isso não significa que seja a prioridade máxima: a Comissão apresenta as ameaças em ordem alfabética e afirma que a figura não é hierarquia de prioridade de política (1). Vale lembrar que ali “obesidade” designa o conjunto de IMC elevado, dieta inadequada e baixa atividade física (1).
O que significa “carga evitável” em DALYs? É a diferença entre o melhor e o pior cenário plausível projetados para uma ameaça, expressa em anos de vida saudável (1). Não é a carga total da ameaça, é a parcela que poderia ser evitada por ação política até o fim do século. Vale olhar sempre o intervalo de incerteza junto: ele é largo, e em vários casos cobre a estimativa central de outras ameaças da lista (1).
Por que ameaças conhecidas, como doença cardíaca, ficaram de fora? Doença isquêmica do coração e vários cânceres específicos foram excluídos da camada catastrófica por avaliação de que já recebem atenção política e investimento suficientes (1). Colisão de asteroide e supervulcões foram avaliados e descartados por probabilidade considerada extremamente baixa nos próximos 75 anos (1).
Esses números são certezas? Não. São projeções de cenários até 2100, não medições, e cada estimativa vem com intervalo de incerteza de 95% (1). Os intervalos são largos, e em dois casos, inteligência artificial e conflito nuclear, o limite inferior é zero (1).
Referências
- Murray CJL, Kanem N, Abed S, Abubakar I, Adetifa IM, Aguilera XP, et al. The Lancet Commission on 21st century global threats to health. Lancet. 2026;408(10564):1603-61. doi:10.1016/S0140-6736(26)01714-9.
- Institute for Health Metrics and Evaluation. New Lancet Commission provides roadmap to protect economies, security and global stability from catastrophic threats to health and human survival [Internet]. Seattle: IHME; 2026 [acesso em 2026 out 21]. Disponível em: https://www.healthdata.org/news-events/newsroom/news-releases/new-lancet-commission-provides-roadmap-protect-economies
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
- Department of Error. Lancet. 2026;408(10564):1556. doi:10.1016/S0140-6736(26)02056-8. [Errata referente à referência 1, que corrige o nome e as afiliações de um dos comissários, sem alterar estimativas.]
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