Mortalidade em epidemiologia: taxa de mortalidade, causas de morte e como interpretar

O que é mortalidade em epidemiologia, como calcular taxas de mortalidade geral, específica e padronizada, e como interpretar dados de causas de morte.

Mortalidade é a frequência com que mortes ocorrem em uma população durante um período definido (1). É uma das medidas mais antigas e mais usadas em epidemiologia, não apenas para quantificar a gravidade de uma doença, mas para monitorar tendências de saúde, comparar populações e avaliar o impacto de intervenções ao longo do tempo.

Mas “mortalidade” é um termo que abrange várias medidas distintas, e usá-las de forma intercambiável é um erro frequente em projetos de pesquisa.

Tipos de taxa de mortalidade

Taxa de mortalidade geral é o número total de mortes em uma população durante um período, dividido pela população exposta ao risco naquele período (geralmente expressa por 1.000 ou 100.000 habitantes). Serve para comparações gerais, mas tem uma limitação importante: é fortemente influenciada pela estrutura etária da população. Uma taxa bruta é, no fundo, uma média que esconde a composição do grupo.

Taxa de mortalidade específica é calculada para subgrupos definidos, por doença, por faixa etária, por sexo. É mais informativa porque elimina a confusão com outros grupos. Exemplo: taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares em homens de 45 a 64 anos.

Taxa de mortalidade padronizada por idade compara populações de diferentes estruturas etárias como se tivessem a mesma composição etária de referência. É a medida usada pelo Global Burden of Disease, Injuries, and Risk Factors Study (GBD) para comparações internacionais válidas (2). Sem padronização, comparar a mortalidade do Brasil com a do Japão seria comparar realidades demográficas completamente diferentes.

Mortalidade prematura: o que a epidemiologia define como “cedo demais”

Nem toda morte é igual do ponto de vista epidemiológico. A mortalidade prematura refere-se às mortes que ocorrem antes de uma idade-limite, geralmente 70 anos nas análises de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) e na meta 3.4 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (3).

A mortalidade prematura captura um aspecto que a mortalidade geral ignora: morrer aos 45 anos de infarto é epidemiologicamente diferente de morrer aos 82. A primeira representa anos de vida perdidos prematuramente; a segunda, embora trágica, ocorre dentro de uma expectativa de vida mais longa.

Mortalidade proporcional e a distribuição das causas de morte

A mortalidade proporcional indica qual porcentagem das mortes em uma população é atribuível a cada causa. No Brasil, segundo os dados da Estatística Cardiovascular 2023, as doenças cardiovasculares respondem por quase um terço de todas as mortes (4). Isso não significa que o Brasil tem a maior taxa de mortalidade cardiovascular do mundo, apenas que ela é proporcionalmente grande em relação a outras causas.

Essa distinção importa: alta mortalidade proporcional pode refletir baixa mortalidade por outras causas, e não necessariamente alta mortalidade cardiovascular absoluta.

Como interpretar dados de mortalidade na sua pesquisa

Ao usar dados de mortalidade em projetos, três perguntas orientam a interpretação correta: A taxa é padronizada por idade? Qual é a fonte dos dados (DATASUS, SIM, GBD)? Qual é o período de referência?

Dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) são a fonte padrão para mortalidade no Brasil, mas têm limitações conhecidas: subnotificação de causas em regiões com menor infraestrutura hospitalar e problemas de codificação de causa básica do óbito (5).

Entender essas medidas é a base para trabalhar com qualquer dado de saúde, seja no GBD, no DATASUS ou de outra fonte.

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Perguntas frequentes sobre mortalidade em epidemiologia

O que é taxa de mortalidade em epidemiologia?

Taxa de mortalidade é o número de mortes em uma população durante um período, dividido pela população em risco, geralmente expressa por 1.000 ou 100.000 habitantes. Existem taxas gerais, específicas (por causa, sexo ou faixa etária) e padronizadas por idade (para comparações internacionais válidas).

O que é mortalidade padronizada por idade e por que é importante?

Taxa de mortalidade padronizada por idade (ASDR) é calculada aplicando as taxas específicas por faixa etária de uma população a uma população de referência padrão. Permite comparar países com estruturas etárias diferentes de forma válida, sem ela, populações mais velhas pareceriam sempre ter maior mortalidade simplesmente por serem mais idosas.

Qual a diferença entre mortalidade geral e mortalidade prematura?

Mortalidade geral contabiliza todas as mortes independentemente da idade. Mortalidade prematura foca nas mortes que ocorrem antes de uma idade-limite (geralmente 70 anos para DCNTs), capturando o impacto de mortes que interrompem anos produtivos de vida. É a medida usada para monitorar o ODS 3.4.

O que é mortalidade proporcional?

Mortalidade proporcional é a porcentagem das mortes totais atribuída a uma causa específica. Uma doença com alta mortalidade proporcional não necessariamente tem alta taxa de mortalidade absoluta, pode apenas ser mais prevalente do que outras causas de morte na mesma população.

Onde encontrar dados de mortalidade para pesquisa no Brasil?

As principais fontes são: SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) via DATASUS/Tabnet, para dados brasileiros por CID-10 e município; GBD Compare (IHME) para dados padronizados e comparações internacionais; e a Estatística Cardiovascular Brasil (publicação anual nos Arq. Bras. Cardiol.) para causas cardiovasculares.


Referências

  1. Gordis L. Epidemiology. 5th ed. Philadelphia: Elsevier Saunders; 2014.

  2. GBD 2021 Diseases and Injuries Collaborators. Global incidence, prevalence, years lived with disability (YLDs), disability-adjusted life-years (DALYs), and healthy life expectancy (HALE) for 371 diseases and injuries. Lancet. 2024;403(10440):2133-2161. doi:10.1016/S0140-6736(24)00757-8.

  3. World Health Organization. Global health estimates: leading causes of death. Geneva: WHO; 2023.

  4. Oliveira GMM, et al. Estatística Cardiovascular – Brasil 2023. Arq Bras Cardiol. 2024;121(2):e20240079. doi:10.36660/abc.20240079.

  5. Brasil. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Brasília: DATASUS; 2024. Disponível em: http://datasus.saude.gov.br.